Apresentação: UM INDICIONÁRIO DE NÓS

Apresentação
UM INDICIONÁRIO DE NÓS

Bárbaro, nosso, vosso, este Indicionário supõe, antes que nada, insubordinação, insatisfação, inquietação, independência… Mas supõe, sobretudo, um infinito e infinitivo desejo de ler, falar, ver, fazer e viver junto, de parte de um in-certo grupo: um desejo de convívio e de comunidade enquanto amizade, conversa e conflito em distintas paisagens americanas. Joga também, este Indicionário, com o significante índice ao postular uma leitura-escritura indicial das linguagens e dos conceitos em cena. Antes mesmo, porém, de apresentá-los, caberia dizer que foram trabalhados coletivamente de modo desafiador e necessariamente criativo, durante quatro anos. Conceitos que foram escritos e reescritos por diferentes pares, o que implica uma outra pergunta, outro ponto de interrogação, além do “como viver junto” barthesiano, e que vem a ser o “como escrever em colaboração”. Vale dizer: como viver junto e como escrever em colaboração, como escrever, em suma, coletivamente e a partir de diferentes perspectivas críticas e diferentes geografias da América do Sul. Desde Cali, na Colômbia, onde tudo começou, mas também desde Campina Grande, na Paraíba, de São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Buenos Aires. No meio do caminho, este livro foi batizado a partir de outro “in” fundamental para pensar os “nós” teórico-críticos então em processo, como veremos a seguir, o “in-utensílio” leminskiano: contra a inocência da linguagem, a linguagem como “inutensílio”.
Este livro surgiu, portanto, de um encontro entre ensaístas-pesquisadores-professores que utilizam as línguas brasileira e castelhana como línguas-mães-irmãs e assim o fizeram em terras colombianas, vale dizer, amazônicas e americanas por ocasião de um simpósio que se realizou na Universidad del Valle no mês de julho de 2012. O primeiro encontro daquilo que hoje culmina como um in-dicionário sexto e bissexto, uma antiantologia tão breve como aberta de conceitos que incidem de modo decisivo sobre o pensamento das artes e literaturas atuais, isto é, sobre poesia, política, imagem, espaço e tempo, ou, em uma palavra, sobre a imaginação-pública-contemporânea.
Viajar para a Colômbia – pela primeira vez, para muitos que integraram o simpósio – foi o disparador confesso dessa reunião em Cali em pleno Valle del Cauca, como participantes de um congresso internacional, o X JALLA – Jornadas Andinas de Literatura Latinoamericana. Movidos pela fome de viagem e de seu relato (valha a redundância), propusemos então um simpósio em torno da questão do contemporâneo, que contou, de início, com a participação de Antonio Andrade, Antonio Carlos Santos, Ariadne Costa, Florencia Garramuño, Luciana di Leone, Maria Lucia de Barros Camargo, Rafael Gutierrez Girardo, Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda, além de seus quatro organizadores que assinam esta apresentação. Engajados no eixo temático das “Políticas literárias do contemporâneo”, sustentamos nas bases fundamentais do simpósio que a desconexão e a defasagem eram condições iniludíveis para “ser contemporâneos”, isto é, para a adoção de uma perspectiva em perpétuo desajuste com o seu tempo, entendido como a música de “um outro presente”. Nesse sentido, a literatura, com uma temporalidade que lhe é própria e que se nutre do anacronismo, parece ser um exercício dessa condição. Observávamos também que nos últimos anos e de diferentes maneiras, muitas vezes em aberto confronto, a literatura havia tornado a ser abordada a partir da política e em sua politicidade, e citávamos alguns poucos nomes: Giorgio Agamben, Jacques Rancière, Alan Badiou. Como ponto de partida enumeramos algumas conceitualizações – a “palavra muda”, que emerge no regime estético das artes, capaz de reconfigurar a partição dada do sensível, a escrita como um pensamento filosófico, a poesia como experimento do impossível ou, inclusive, de uma crise que constitui sua singularidade – e nos propusemos a explorar as formas nas quais a literatura se relaciona com seu presente para indagar as figuras, os agenciamentos e os modos de leitura com os quais se constrói sua politicidade.
Durante aquelas jornadas andinas, alguns conceitos foram aparecendo de modo recorrente nas diferentes apresentações individuais, o que nos levou à ideia de realizar um trabalho conjunto – e quem sabe uma publicação, esta – sobre os próprios conceitos, entre os quais os de comunidade, de comum, de horizontalidade. Daí surgiu a ideia de uma publicação coletiva que não fosse uma mera compilação de trabalhos individuais. A partir de então, os ensaístas-viajantes trataram de escolher um ponto intermediário no mapa, em que fosse possível voltar a reunir cada um frente a frente. Enquanto isso, e tendo em conta essa localização geográfica diversificada de seus integrantes, deu-se início a um intenso intercâmbio de textos pelo correio eletrônico que procurou delimitar um certo conjunto de definições crítico-teóricas e as equipes de trabalho para uma redação inicial.
A primeira etapa do trabalho consistiu em ler os trabalhos apresentados nas quatro mesas programadas para o simpósio. Cada um de nós devia extrair conceitos considerados relevantes e sugerir bibliografia crítica pertinente. Com essa tarefa realizada, fizemos circular os resultados, buscamos certas afinidades eletivas entre os diferentes integrantes do grupo e montamos o que seriam nossas equipes de trabalho. Nesta fase foi gerada uma pletora de conceitos – como os de “Formas do não pertencimento”, “Intimidade”, “Materialidades”, “Intempestividade”, “Sobrevivências”, “Afeto” –, depois refinados nos seis verbetes finais: “Práticas inespecíficas”, “Arquivo”, “Endereçamento”, “Contemporâneo”, “Comunidade”, “Pós-autonomia”.
A reinvenção coletiva desses seis conceitos e sua redação provisória demandou um trabalho de cerca de oito meses, quando se decidiu convocar o novo encontro que teria por objetivo discutir o trabalho realizado e encaminhar uma forma final ao projeto. O segundo encontro do grupo se realizou em outra cidade periférica da América do Sol, Florianópolis, na sede da Universidade Federal de Santa Catarina, durante os dias 29 e 30 de abril de 2013. Ocorreram modificações no processo de organização do segundo encontro, com a integração de Paloma Vidal e a presença de Maria Lucia de Barros Camargo, agora como convidada, paralelamente à intervenção de Raúl Antelo, responsável pela conferência de abertura que hoje publicamos como posfácio do Indicionário com o título de “Espaçotempo”. Nesses dois dias na Ilha do Desterro foram apresentados os trabalhos elaborados a distância, em que atingimos o principal objetivo que era o de chegar aos conceitos finais, conforme aparecem no índice de nossa “antiantologia de nós”, ou seja, de certos nós teórico-críticos das políticas literárias do presente.
Na sequência dessas discussões, em ousada volta de parafuso, decidiu-se que novas equipes assumiriam o trabalho realizado pelas equipes originais para escrever o texto final – finalmente anônimo – de cada ensaio ou verbete indicial. Dessa maneira, intercambiando tantos as duplas de trabalho quanto o conceito trabalhado por cada uma, se aprofundou efetivamente o processo de escrita coletiva de nosso heteróclito in-utensílio em forma de in-dicionário, cuja denominação apelou não apenas à insubordinação, mas também ao humor e à alegria que é a prova dos nove, segundo Oswald de Andrade. A alegria, ainda, de experimentar algo novo no seio das instituições públicas brasileiras e argentinas a que pertencemos, com outro bordão neovanguardista, desta vez devido a Silviano Santiago, em nossas mentes – escrever é escrever contra, readaptado ao cenário atual: escrever é escrever com, de que este esforço conjunto e múltiplo é claramente tributário.
Título, definições críticas e equipes fechadas, iniciamos a última etapa deste insólito trabalho comunitário – tão insólito quanto incisivo, ao menos entre aqueles resultantes de simpósios de encontros acadêmicos no campo das ciências humanas. Foi retomada então a comunicação virtual e, mediante mais um ano de intercâmbios escritos via correio eletrônico, chegamos a esta versão do Indicionário, cuja proposição central é discutir e levar a público um modo diverso e independente de discutir, de se posicionar, de propor e de pensar no interior dos chamados bancos universitários. Afinal, compartilhar com o leitor um trabalho coletivo sobre arte e política significa também intervir no mundo das ideias e das políticas estético-literárias do presente, entre vanguarda e instituição.

Celia Pedrosa | Diana Klinger | Jorge Wolff | Mario Cámara
Rio de Janeiro | Florianópolis | Buenos Aires